Lições de fotografia com Roland Barthes

 
“A fotografia reproduz ao infinito o que só ocorreu uma vez: ela repete mecanicamente o que nunca mais poderá repetir-se existencialmente.” Barthes, 1980

 

Essa é uma resenha para pensarmos fotografia como Roland Barthes. Entre ele, eu e você há outros mil pensamentos e ideias. Mas, hoje, falaremos das lições apreendidas em Câmara Clara (1980), livro do autor. Mas quem é Barthes? Por que este livro? Adiante!

A BBC UK desenvolveu uma série de 5 episódios sobre o autor. Créditos: BBC UK

A BBC UK desenvolveu uma série de 5 episódios sobre o autor. Créditos: BBC UK

Roland Barthes é francês e viveu de 1915 a 1980, falecendo após um acidente de carro. Também foi  escritor, sociólogo, crítico literário, filósofo e semiólogo. Divulgou diversos livros analisando imagem e texto em que investiga as representações do mundo nestes produtos. O autor era da corrente de pensamento estruturalista.

Câmara Clara é seu último trabalho lançado em vida. Trata-se de uma obra teórica e filosófica com um quê de romance poético sobre a Fotografia, com letra maiúscula como descreve o autor.

O título do livro rememora uma ferramenta do passado. O instrumento consistia  em um telescópio dotado de um prisma, um jogo de espelho e lente, tudo isso, fixado sobre uma mesa de desenho. A representação revela-se à medida que o “pintor” coloca seu olho no visor e “enquadra” o objeto a ser representado. Então, desenhava-se a imagem projetada. É isto que busca o autor nos convencer durante o romance: a essência da fotografia não é de uma ordem profunda, íntima; ela está fora, no elemento exterior que através dela se evidencia.

À esquerda, uma câmara escura. À direita, um Daguerreótipo. 

À esquerda, uma câmara escura. À direita, um Daguerreótipo. 

O texto tem leitura dinâmica. É teórico e filosófico, mas escrito aos moldes de diálogo em que Barthes relata suas experiências diante de determinadas imagens. É o autor cru, com sua história, suas escolhas e suas fragilidades.

O livro surge como uma pesquisa sobre a fotografia. Critica Barthes que “os livros sobre fotografia: uns são técnicos, acomodando a vista sobre a fotografia muito perto. Outros, são históricos ou sociológicos, acomodando a vista muito longe. Nenhum falava com justeza das fotos que me interessavam, me davam prazer ou emoção”. Assim, o autor tenta formular o traço fundamental da Fotografia a partir de alguns movimentos pessoais.

A obra possui 48 capítulos escritos durante 48 dias (de 15 de abril a 3 de junho de 1979). Logo, constitui-se como um relato aos moldes de diário e assim deve ser consumido. Mas, atente-se: nas linhas subjetivas se esconde a formulação da teoria. A ideia do livro não é apenas refletir sobre a Fotografia, mas se deixar tocar por ela.

 

“Se na fotografia não há ferida, o que lhe interessa é, no máximo, época, roupas e fotogenia [da imagem]”

 

A trama se trança a partir de diversas fotos pelas quais o autor se interessa e busca compreender os mistérios destas imagens. Para Barthes, não há uma teoria geral da Fotografia, apenas “fotografias”. As fotos escolhidas justifica o autor, que são “algumas fotos, aquelas que eu estava certo de que existiam para mim”. Por isso, opta por não mostrar a imagem que mais discute e comenta, uma fotografia de sua mãe, porque sabe que o carinho de seu olhar é exclusivamente seu e, assim também, aquilo que essa imagem o provoca.

 

“Toda foto mistura duas vozes: a da banalidade (dizer o que todo mundo sabe e vê) e a da singularidade (salvar essa banalidade de todo o ardor de uma emoção de um indivíduo)”

 

Então, o que o autor vê quando olha essas fotografias?

 

No livro, o autor apresenta-nos três pessoas envolvidas no ato fotográfico. O produtor (que chama de operator), aquele que é representado pela fotografia (spectrum) e o observador (spectator). “A fotografia é sempre um canto alternado de ‘Olhem’, ‘Eis aqui’. A fotografia sempre traz consigo seu referente”.

 

A esta altura, descobrimos os dois pontos de investigação do livro: O autor compreender como andava o seu desejo e descobrir a natureza da Fotografia. Daí, partem algumas conclusões. 

 

#1

A primeira, de que o noema da Fotografia é ‘Isso-foi’. Na fotografia, há uma dupla posição conjunta: de realidade e de passado.

 

#2

A segunda, de que o que se intenciona em uma foto não é nem a Arte, nem a Comunicação, é a Referência, que é a ordem fundadora da Fotografia.  “A fotografia é a prova-segundo-são-Tomé-ao-querer-tocar-o-Cristo-ressuscitado”

 

#3

Uma terceira conclusão é que a natureza da Fotografia é a pose. Sempre houve pose, pois a pose não é aqui uma atitude do alvo, nem mesmo uma técnica, mas o termo de uma “intenção” da leitura: “Ao olhar uma foto, incluo fatalmente em meu olhar o pesamento desse instante, por mais breve que seja, no qual uma coisa real se encontrou imóvel diante do olho e aí permaneceu para sempre”

 

Câmara Clara é concluída apontando dois caminhos. Diz o autor, “Cabe a mim escolher, submeter seu espetáculo [o da fotografia] ao código civilizado das ilusões perfeitas ou afrontar nela o despertar da intratável realidade”.  “Ah, se houvesse apenas um olhar, o olhar de um sujeito, se alguém, na foto, me olhasse!”

 

E você?  O que vê e como vê as fotografias à sua volta?  Que tal anotar essas lições do Barthes? Se você prefere me escutar em vez de ler, é só dar play!

 

 

Lição um: Imagem x O “eu”

“Eu” jamais coincido com a minha imagem; pois é a imagem pesada, imóvel, obstinada, e sou “eu” leve, disperso e dividido.

 

Lição Dois: Fotorretrato e as 4 forças

Diante da objetiva, sou eu ao mesmo tempo: aquele que eu me julgo, aquele que eu gostaria que me julgassem, aquele que o fotógrafo me julga e aquele de que ele se serve para exibir sua arte.

 

Lição Três:  A aventura

Razões que temos para os interessar por uma foto; podemos: seja desejar o objeto, a paisagem, o corpo que ela representa; seja amar ou ter amado o ser que ela nos dá a reconhecer; seja espantarmo-nos com o que vemos; seja admirar ou discutir o desempenho do fotógrafo, etc. O princípio da aventura permite-me fazer a Fotografia existir. Tal foto me advém, outra não.
 

Lição Quatro: A ferida

 

Lição Cinco: Homogeneidade

As fotos monótonas comportam aos olhos do autor qualquer marca: sua homogeneidade permanecia cultural, eram “cenas”. Essas fotos de reportagem são recebidas (de uma só vez), eis tudo. Eu as folheio, não as rememoro; nelas, nunca um detalhe (em tal canto) vem cortar minha leitura: interesso-me por elas, não gosto delas. Então, como transformar esta fotos banais? Uma foto pornográfica, por exemplo, para ser considerada erótica, deve ter algo além da imagem do sexo. Exemplo desse processo é o fotógrafo Mapplethorpe, que fotografa de muito perto as malhas da sunga: a foto já não é mais unária, já que me interesso pelo grão do tecido.

 

Lição Seis: Detalhes

Pela marca de alguma coisa, a foto não é mais qualquer. Esse alguma coisa deu um estalo, provocou em mim um pequeno abalo e a passagem de um vazio. Por causa desses detalhes, os personagens ganham vida e mostra-se uma vida exterior ao da Foto.

 

Lição Sete: Fotografia é teatro

Não é, porém, pela Pintura que a Fotografia tem a ver com a arte, é pelo Teatro. Sabe-se da relação original do teatro e do culto dos Mortos. Essa é a mesma relação que Barthes encontra na Foto; por mais viva que nos esforcemos por concebê-la. A Foto é a figuração da face imóvel e pintada sob a qual vemos os mortos.

 

Lição Oito: Fotografia de turismo

Fotos de lugares, algumas, gera o sentimento de “tenho vontade de viver lá”. As fotografias de paisagens (urbanas ou campestres) devem ser habitáveis, e não visitáveis.