OPEN MIND - Entrevista com Fernando - Fotoshow Jaú

"A fotografia surgiu em minha vida como um hobby no ano de 1999 quando um cliente entrou no banco com uma Canon digital. Eu fiquei alucinado quando vi a foto no visor pela primeira vez. Ainda não existia no Brasil. Perguntei como tinha conseguido aquela câmera e no mesmo dia ligamos para Nova Iorque para fazer o pedido. A máquina chegou em um mês. Era uma Olympus D510 1.3 megapixels. Custou uma fortuna na época."

 

Fernando Souza atua em Jaú, São Paulo, e se tornou uma referência de fotografia na região. Já realizou mais de 1.600 casamentos. Decidiu pedir demissão do estável cargo de gerente bancário para viver de sua maior paixão, a fotografia.

O Ateliê Além do Visível teve a oportunidade de entrevistá-lo e conhecer um pouco mais de sua trajetória.

 

Ateliê: Fui em um casamento e vi vocês fotografando e me chamou muita atenção a postura discreta de vocês. Você usa luz artificial?

Fernando: Raríssimas vezes. Só quando quero um luz mais dramática ou uma composição diferente, aí utilizo flash ou LED. Eu acho que o flash tira a naturalidade. Aliás, os fotógrafos gastam rios de dinheiro com equipamentos, na maioria das vezes sem necessidade. Eu aproveito muito a iluminação da filmagem.

Ateliê: Os profissionais têm uma ansiedade por adquirir muitos equipamentos. Sempre foi assim?

Fernando: Sempre foi assim. As pessoas acreditam que ter muitos equipamentos é sinal de competência, mas na verdade o cara bom faz foto com qualquer equipamento. Não sei se vocês chegaram a ver a máquina que eu trabalho, mas sou preguiçoso. Não uso lente zoom, só fixa e DF. Minha paixão é a 35mm. Em cerimônia e festa gosto de fotografar com uma 105 mm.

Ateliê: Você é o segundo fotógrafo que ouço dizer isso. O Frankie Costa conta que era daqueles fotógrafos que carregava lentes e mais lentes, até o dia em que decidiu usar apenas a 50mm.

Fernando: Eu cheguei a ter 12 câmeras, 50 lentes, 12 flashes, LED, tripé...Não é isso que faz um bom profissional, bobagem. Quando eu fotografo, 70% das fotos saem prontas, quem trabalha comigo sabe disso. O meu objetivo é que a foto saia praticamente pronta para fazer só pequenos ajustes depois. Balanço de branco, abertura, velocidade e exposição são essenciais e todo fotógrafo tem que saber.

Ateliê: Como foi seu começo na fotografia?

Fernando: Foi uma grande mudança. Eu era gerente de banco, mas sabe quando você não tem prazer no que faz?

A fotografia surgiu em minha vida como um hobby no ano de 1999 quando um cliente entrou no banco com uma Canon digital. Eu fiquei alucinado quando vi a foto no visor pela primeira vez. Ainda não existia no Brasil. Perguntei como tinha conseguido aquela câmera e no mesmo dia ligamos para Nova Iorque para fazer o pedido. A máquina chegou em um mês. Era uma Olympus D510 1.3 megapixels. Custou uma fortuna na época. Só o cartão de 8 MB custou 400 dólares.

Ateliê: E como seu trabalho ganhou tanta visibilidade?

Comecei fotografando borboleta. A internet tinha acabado de chegar no Brasil. Um site publicava as melhores fotos do dia, da semana e do mês, e foi quando decidi publicar as minhas fotos. Ganhei visibilidade no mundo inteiro. Comprei uma câmera para meu filho e saíamos para fotografar juntos. Recebemos prêmios em vários países. Estados Unidos, Israel, Alemanha, França…

Ateliê: Fale um pouco sobre a Fotoshow

Resolvi me demitir. Meu sonho era ser fotógrafo de natureza, trabalhar na National Geographic. Viajei durante um ano pelo Brasil fotografando publicidade e criando banco de imagens. Montei uma empresa de fotografia em Jaú com o mesmo amigo que me apresentou a câmera e revolucionamos o mercado. Fui o primeiro empreendedor no estado de São Paulo a fazer um casamento 100% digital. Na época, isso era fantástico. Levar uma foto impressa para os convidados ainda durante a festa era chocante. A empresa cresceu muito e percebi que as pessoas gostam do meu olhar, então abri a Fotoshow. Comecei do zero. O negócio embalou e chegamos a fazer sete casamentos no final de semana.

Ateliê: Seu filho Rafael Bigarelli, fotógrafo de casamento reconhecido nacionalmente, já estava junto com você, fotografando?

Fernando: Na época, ele prestou vestibular e foi estudar Ciências Sociais em Maringá. Quando percebeu que não era o que queria, voltou para Jaú e começou a trabalhar comigo na Fotoshow. Depois de juntar uma grana e montar um portfólio decidiu montar o próprio negócio.   

Ateliê: E sobre precificação. Você acha que os fotógrafos estão prontos para entender a fotografia como negócio?

Fernando: Vejo fotógrafos morrendo de trabalhar para comer. Não percebem que se o equipamento deles pifarem, vão ter que tirar dinheiro de outro lugar para pagar um novo. Quem faz qualquer negócio para fotografar um casamento corre um grande risco por muito pouco.
Eu já fiz casamento de graça no começo e não me arrependo. Todo começo é difícil. Mas algumas pessoas não percebem que o começo acaba. A dimensão do nome e do trabalho tem que aumentar, assim como o preço.

Ateliê: É ruim pra pessoa se ela não tem essa consciência.

Fernando: O cara que contrata o fotógrafo para fazer seu casamento, que é um dia muito importante, por R$800,00, não está preocupado com a qualidade. No Brasil, vivemos a cultura do "quanto mais barato melhor". Hoje eu me deparei com um fotógrafo em Bauru fazendo casamento por R$599,00 dividido em 10 vezes. Eu nem aceito cartão. Você paga de 4 a 6% de comissão para a operadora. Vai sobrar para ele 300 e poucos reais para fazer o casamento e provavelmente não conseguirá sobreviver de fotografia, além de não conseguir bancar um curso, um equipamento decente, um livro de fotografia...mas o principal problema: ele não estará valorizando seu trabalho.

Ateliê: Eu percebo que muitos fotógrafos não possuem conhecimento de negócio e acreditam que tudo se trata de equipamento.

Fernando: Para quem sonha em viver de fotografia precisa, além dos equipamentos e cursos, fazer o cálculo de quanto precisa para viver bem. Geralmente as pessoas começam com um trabalho fixo e a fotografia como um extra. Eu juntei dinheiro trabalhando como gerente de banco para depois poder viver do meu sonho. Hoje em dia escolho quantos casamentos eu vou fazer por ano e me dou o luxo de não pegar casamento entre natal e ano novo. Depois de mais de 15 anos fazendo 220, 230, 240 casamentos por ano, finalmente posso fazer isso.

Ateliê: E para viver de fotografia, quais seriam os primeiros passos?

Fernando: Quer viver de fotografia? Estude em primeiro lugar. Participe de workshops, leia livros, estude pela internet, busque referências e desenvolva seu próprio olhar. Durante dez anos fui referência de fotografia na região. Lancei pelo menos 8 fotógrafos que encontraram seu próprio espaço e não são meus concorrentes.  

Ateliê: E como era seu fluxo de trabalho? Como é hoje? Que mudanças aconteceram?

Fernando: Quando o Fotoshow explodiu há uns 10 anos, fazia mais de 200 casamento por ano. Foram 8 anos sem vida própria. Queria ter tempo com a minha família, viajar. Fiquei 3 anos sem poder ver meu neto, trabalhando de segunda à segunda atendendo casais, tratando fotos, diagramando álbuns...Em 2014 decidi mudar meu estilo de vida e reestruturar todo o meu trabalho. Desfiz minha sociedade e estabeleci uma meta: faria apenas 30 casamentos no ano. Acredito que consegui tomar essa decisão porque entendi o valor do meu trabalho.

Ateliê: Quanto maior o negócio, mais dinheiro e tempo precisa ser dedicado, e a qualidade de vida acaba sendo afetada.

Fernando: Quando fiz essa mudança, senti o prazer de quem acabou de começar a fotografar. Minha criatividade foi ainda mais explorada. Mesmo quando faço casamentos no mesmo lugar, com a mesma cerimonialista, consigo fazer cada trabalho diferente do anterior, porque tenho tempo para me dedicar ao cliente.

Ateliê: Você saiu de um negócio com uma grande estrutura, um giro e custo maiores, para um trabalho mais autoral e artesanal. Quais foram os fundamentos para o redirecionamento de seu trabalho? Aumentar valor, definir um novo público-alvo?

Fernando: A primeira coisa foi repensar minha vida. Ver quanto eu precisa ganhar por mês para viver sem aquela mega estrutura e ter alegria para fazer meu trabalho.

Ateliê: Algumas pessoas têm a ilusão de quando entram para a fotografia tudo será mais fácil. Sair do escritório e trabalhar com criatividade cria uma ideia falsa de liberdade?

Fernando: O profissional autônomo tem que ter consciência que tudo depende dele no fim do mês. Fotografar é apenas uma parte do trabalho. Passar 7, 8 horas na frente do computador tratando foto, diagramando é, muitas vezes, como qualquer outro emprego, sem contar as horas extras trabalhadas.

Ateliê: É bacana essa maneira de pensar. Você respeita seu trabalho e tem o produto certo para a pessoa certa.

Fernando: Muitas vezes deixo de pegar um casamento para não comprometer a qualidade do meu trabalho. A experiência de ter trabalhado 20 anos atendendo casais fez com que eu conseguisse identificar o perfil de meus clientes.

Ateliê: O que você sugere para quem está entrando no mercado?

Fernando: Quem quer viver de fotografia tem que pensar em alguns pontos. Estudar não só fotografia, mas técnicas de venda, por exemplo, é fundamental para se destacar. Vender fotografia não é como vender geladeira. Fotografia é arte, e vender arte não é qualquer um que consegue.