Pela autonomia da mulher

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Glaucia, Paula e Lívia. Mulheres, jovens e empreendedoras. 

 

O nosso Ateliê é composto apenas por mulheres, jovens, recém formadas. Guardamos nosso diploma na gaveta e, no fim, o que conta é o que provamos todos os dias, no fim de cada trabalho que realizamos. O que aprendemos na nossa profissão não foi faculdade que ensinou. Os caminhos são abertos em golpes curtos, diários, laboriosos. 

Somos duas empresas, dois nomes. O Ateliê Além do Visível – cursos de fotografia e produção cultural – e a Damelie - fotografia de casamento. Ser empreendedora, mulher e jovem não é fácil em uma cultura machista, meritocrata e conservadora.

Difícil para nós falarmos sobre o dia da mulher sem pensar no viés político que essa data representa. Sei que é chato, ninguém gosta de falar sobre coisas que incomodam. A discussão, na nossa cultura, se tornou coisa para intelectual.

O debate é importante em todas as dimensões das nossas vidas: nas relações de trabalho, no campo afetivo, no virtual. É a melhor maneira de ponderar os pensamentos, enxergar outras perspectivas, reafirmar o que já se pensa ou mudar de opinião.

Vejo, em grande parte das discussões a necessidade de achar um culpado. E o mais interessante é saber que o outro sempre o será. É mais fácil, é mais confortável. No dia da mulher cabe sim a reflexão, o pensamento histórico e social, a contextualização. O que não cabe é não entendermos que SOMOS parte do processo. É apontar o dedo e não entender que colaboramos para que grande parte dos nossos problemas se perpetuem e continuem acontecendo.

Seja na política atual, seja no papel social de cada gênero, seja em qualquer luta... somos parte de um todo. Somos a cultura, somos o machismo, somos a corrupção, somos o que nossa cultura representa. Nós somos, nós atuamos, nós somos responsáveis. Portanto, para qualquer mudança é necessário que também mudemos.

Se o machismo se perpetua, o que eu faço que corrobora com esse pensamento? O machismo vem talvez de nós mesmas que, intimidadas, baixamos os valores do nosso trabalho no lugar de investir em melhorias e justificar o preço. O machismo vem de nós, mulheres, que permitimos as ameaças de um marido ciumento. O machismo vem de todas nós quando deixamos de estudar para cuidar dos filhos, quando esperamos o marido instalar algum eletrônico, um chuveiro, o que seja – só porque é coisa de homem. É em uma louça suja que se vê a equidade das relações. Um cozinha, o outro limpa. O equilíbrio nas relações começa no breve, no ínfimo, no mínimo.

Provar quem somos, o que fazemos, de onde viemos e o que queremos é o mais difícil - para nós mesmas. Nesse dia tão igual a qualquer outro, que haja força para continuar, para persistir, para tentar, para arriscar, para acreditar e ser aquilo que a gente sonha. Talvez seja esse o objeto de todas as manifestações nesse dia da mulher. Mais liberdade de pensamento, de ação. É ter autonomia no trabalho e sentir que possuímos capacidade para trabalharmos com o que quisermos, quando quisermos. É viajar sozinha sem medo. É estar bem sozinha. Ou junto de alguém que a gente gosta de compartilhar a vida, tanto faz. É fazer escolhas sinceras e seguir em frente.

Ser mulher é mais que nos libertarmos do assédio sexual. É nos libertarmos dos pudores e das prisões que nós também ajudamos a construir.

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Acho que quando a gente polariza demais as coisas, o discurso tende só a mudar de lado.

Presenciei algumas vezes uma cena na casa de um amigo que retrata bem isso. Um casal comum, como qualquer outro, com dois filhos: um menino e uma menina. Desde o café da manhã percebi a menina sempre atarefada, fazendo algo em casa. A mãe, cobrando. Logo após o café, a menina ajudou a retirar toda a mesa, guardou os pratos, ajudou a lavar a louça. O menino, vendo tv. Nesse caso, vejo uma questão não com o menino, mas com a mãe. E mais, com a cultura e contexto social a qual essa mãe cresceu. Alguém ensinou isso à ela. Alguém disse que lugar de menina é na cozinha e outras coisas parecidas. Não digo que não há ai uma questão do menino, que se acomoda nessa situação. Mas a mãe, o papel que ela desempenha junto com o pai, dá a ela autonomia para propor uma dinâmica diferente nas relações familiares.

O contexto de trabalho está mudando. A mulher, ao sair para trabalhar, muda toda essa lógica da casa. Acontece hoje uma mudança estrutural e o que falta é apenas diálogo, melhor divisão de tarefas - até para ser exemplo para os filhos desse casal moderno - ambos com independência, autonomia e poder de decisão. Igualdade entre os sexos, para mim, é isso. Autonomia e pequenas liberdades. O que vejo - e já fui assim - é um proibindo o outro de fazer coisas, de ter individualidade. Um dizendo ao outro o que deve ser feito. Aí não tem gênero que dê conta...

Esse texto tem caráter opinativo. Qualquer comentário que alimente a reflexão é bem vindo :)