Por que é tão difícil falarmos sobre valores? Um pouco sobre o meu começo na fotografia

Gente, antes mesmo de começarmos qualquer conversa quero deixar claro que nãoestou procurando uma única verdade. Não quero apontar qual é o melhor valor, qual a melhor forma de trabalhar. Quero aprender tanto quanto vocês!

Meu único intuito nesse projeto é ABRIR ESPAÇO PARA DISCUTIRMOS de forma amiga, educada e colaborativa a respeito de valores praticados na nossa região. Levantar questões e apontarmos soluções. Só isso! Vamos parar de sofrer, criticar, publicar no facebook comentários raivosos, indiretas. Entendo quem faz isso, mas não compreendo porque não transformar isso em algo positivo. Isso me machuca demais porque estou sempre em contato com fotógrafos iniciantes e SEI da dificuldade que eles passam.

Se você está começando, é CLARO que seu preço tende a ser menor por vários motivos, entre eles o valor investido em equipamentos. Normalmente, quem começa a fotografar trabalha com uma câmera de entrada + um flash simples. O computador, um HP doméstico talvez. Um investimento de mais ou menos uns R$4.000 no máximo. Recuperar esse dinheiro investido é muito mais fácil para quem está começando.

Foi assim que comecei: D40  com 18-55mm + Flash SB800 usado + Computador HP doméstico simples. Valor total do investimento foi de (R$1.400 + R$900 + R$1.200 = R$3.500).

Uma das primeiras fotos que fiz com a D40. Esse é o Vitor, meu sobrinho lindeza!
Uma das primeiras fotos que fiz com a D40. Esse é o Vitor, meu sobrinho lindeza!

Valor que cobrava em 2008 para fotografar um aniversário infantil: R$100 para entregar todas as fotos SEM tratamento. Fotografava e, no final da festa, já entregava o DVD gravado. Como não sabia NADA a respeito de valores, foi o método que encontrei, a duras penas, para começar a trabalhar. E só eu sei como foi difícil. Ninguém sabe mas, antes de começar a trabalhar como fotografa, trabalhei como monitora de crianças nesse mesmo buffet. Como não me conheciam, só foram me dar uma oportunidade depois de três meses. Ah, como monitora, trabalhava 7h por noite para ganhar R$25. Quem ganhava isso por noite, passar a ganhar R$100 (para 4h de trabalho) foi uma grande vitória para mim.

O Buffet, além de tudo, cobrava uma porcentagem em cima do meu trabalho para me indicar aos seus clientes.

Fiz muitos trabalhos voluntários, como esse para um Jornal Comunitário de Curitiba. 
Fiz muitos trabalhos voluntários, como esse para um Jornal Comunitário de Curitiba. 

Mas minha primeira festinha infantil FOI DE GRAÇA SIM. E olha que tentei tudo que vocês possam imaginar.

Distribui cartões pessoalmente em quase todos os buffets infantis. E tudo isso sem carro, imaginem a cena :P Anunciei em jornal, colei anúncios na faculdade, divulguei nas redes sociais da época.

Mas é claro que seria mais difícil para mim porque não conhecia ninguém em Bauru. Não tinha família, não tinha amigo de amigo me ajudando em nada. E o pior: não tinha dinheiro, informação nem conhecimento técnico.

Aos 20 anos em uma cidade totalmente desconhecida, tendo que pagar todas as minhas contas, fazendo faculdade, trabalhando em vários bicos: xerox da faculdade, babá, recepcionista de balada, garçonete, monitora de buffet infantil. E sabe quanto pagam? Na média de R$35 a noite trabalhada (cerca de 5h a 8h). Ah, sem vale alimentação e transporte.  Mais uma vez, passar a ganhar R$100 por 4h de trabalho tinha um GRANDE VALOR para mim.

Quer praticar? Sobrinhos fofos estão aí para isso... (Ops, cadê o foco? haha)
Quer praticar? Sobrinhos fofos estão aí para isso... (Ops, cadê o foco? haha)

Ah, não tenho vergonha de abrir isso à vocês. Minha família já teve muita grana, aos 14 anos fiz minha primeira viagem para a Disney, como toda boa classe média. Tinha tudo do bom e do melhor. Mas era tão mimada! Tivemos uma GRANDE CRISE e perdemos tudo! Olha, nada pode mais educativo que isso viu... Aprendi sobre HUMILDADE mais que tudo nessa vida. Não ter dinheiro me salvou de um destino chato, óbvio e materialista. Trabalhar duro me ensinou a ser mais humilde e a enxergar com mais clareza algumas barreiras invisíveis.

Antes mesmo de começar, mandei email para alguns estúdios a procura de um estágio: entre eles, o MIG Foto e o Yoshida. O pessoal do Yoshida até me respondeu, lembro que eles até me deram alguma esperança nesse sentido. Mas acabou não rolando e, como precisava muito começar, resolvi me jogar. Hoje sei como é difícil essa questão de estágio e super compreendo quem não tem tempo.

É tão difícil discutirmos sobre valores porque CADA UM TEM UM COMEÇO.

Se você é um fotografo experiente e está questionando algum ponto dessa conversa, tente lembrar do seu começo. Alguém te ajudou? Sua família tinha condições de bancar seus estudos? Você morava na casa dos seus pais quando começou a trabalhar? Tinha informação privilegiada, algum parente que trabalhava na área? Tudo isso pode ter sido uma pequena vantagem... Não que seja ruim, pelo contrário, é ótimo começar assim! Dê valor nisso e não se esqueça que não é assim como todo mundo.

São pequenas diferenças...

E você, quanto cobrava no começo da sua carreira? Quero respostas SINCERAS hein pessoal!! Humildade sempre :)

Esse trabalho aqui fiz com uma D90 emprestada. Não ter dinheiro faz a gente ser mais criativo!
Esse trabalho aqui fiz com uma D90 emprestada. Não ter dinheiro faz a gente ser mais criativo!

Resumindo:

#1 Não julgue. Você nunca sabe o que realmente se passa na vida e no trabalho da pessoa a qual você está criticando.

#2 Ajude sempre que puder. Criticar é o mais fácil, é a primeira reação frente algo que incomoda você. Se transformarmos cada crítica em uma ação colaborativa, o ambiente de trabalho como um todo tende a ser mais saudável.

#3 Comece como você puder mas não deixe de correr atrás da informação. Seu negócio só será sustentável a longo prazo se seus valores forem coerentes com o trabalho/recurso material/estrutura que você tem. Cobrar pouco no começo não é o maior dos problemas, CONTINUAR cobrando pouco é a grande questão!

Dedico esse texto à Thaís Sá, que sofreu algumas críticas desumanas relacionadas à valores cobrados. Só você sabe do seu começo... então, fique tranquila! Viu aqui meu começo? É difícil para a maioria. Muitas vezes não temos a oportunidade de compartilharmos essas histórias...

Orçamento para fotografar festa infantil - Thaís Sá

Quando começou: junho de 2014

Equipamento que usa: D7000, D5100. Lentes: 18-55mm, macro 50mm 2.0; 50mm 1.4

Fornecedores: Álbum da Indimagem

Programas de edição e tratamento: Final Cut (vídeo); Photoshop e Lightroom (foto)

Orçamento da Thaís para agosto de 2015. Valores podem sofrer alteração a qualquer momento.
Orçamento da Thaís para agosto de 2015. Valores podem sofrer alteração a qualquer momento.

Feedback de orçamento: Tha, gostei desse formato compacto e direto. Resume bem seu trabalho, mostrando três opções claras e diretas. Gosto disso porque não deixa o cliente confuso. Trocaria talvez só a segunda foto da direita porque está um pouquinho mais escura que as outras, não impactando tanto.

Quanto aos valores, acho coerente para quem está no seu primeiro ou segundo ano de profissão e tem pouco recurso investido ainda. Sugiro que a cada nova aquisição ou investimento no seu negócio você coloque isso no seu valor. Detalhe que ela só trabalha com fotos em DVD. É legal para quem ainda não tem um controle preciso de custo.

Detalhe para a expressão "sem limites de foto". Talvez seja legal colocar uma média de fotos para você mensurar seu trabalho para o cliente e até mesmo colocar essa informação em contrato. Em um casamento, por exemplo, isso pode ser um problemão! Os clientes não se esquecem das vantagens que prometemos.

#DICA: Sugiro ir mudando as fotos do orçamento sempre que puder, uma foto EXCELENTE é sempre o melhor argumento. Toda vez que faço um trabalho e ele se destaca, eu corro para colocar no orçamento. Seu orçamento funciona como um "cartão de visita" para o cliente, não se esqueça!

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Se você acredita que pode acrescentar algo de positivo nesse texto, escreva aqui nos comentários. Sua colaboração é sempre bem vinda!