A cor e a narrativa dentro dos filmes

Há algum tempo acreditava-se que os filmes em preto e branco seriam melhores que os coloridos já que as cores tirariam a atenção do que realmente importava: a mensagem. Porém, muitos cineastas estão aí para provar o contrário, já que elas são tão representativas que é possível reconhecer o diretor do filme por meio da paleta de cores escolhida.

O primeiro filme que capturou cores naturais é um documentário britânico de 1912 chamado With our king and queen through India (Com nosso rei e rainha pela Índia), filmado com uma Kinemacolor, câmera que usa um processo de adição de duas cores.  Desde então, além do valor estético, as cores, mesmo que subjetivas, complementam a contextualização e o significado dos filmes por atribuírem simbologias às narrativas. Cada cor é capaz de transmitir um sentimento ao acentuar algumas emoções, e assim ajudar na interpretação do que o diretor deseja exprimir.  

Ficou interessado em como as cores influenciam as narrativas?

Veja aqui CINCO FILMES que separamos para você comprovar a força da paleta de cores.

 

O cozinheiro, o ladrão, sua mulher e seu amante (1989)
 

- Veja o trailer aqui.

O filme se passa, basicamente, em quatro cenários: o restaurante, o banheiro, a cozinha e a parte externa. As cores podem ser claramente percebidas como grande caracterizadora, já que cada ambiente tem uma cor que predomina. É interessante como a cor age no figurino das personagens, já que, ao passo que os atores vão de um cenário a outro a cor de suas roupas mudam. Assim, o diretor consegue ampliar o significado do que acontece em cada cena.

O restaurante

A cor vermelha, usada na decoração do restaurante, simboliza sangue e guerra. Lugar onde se passa a maior parte do filme, o interior do Le Hollandais lembra os cenários dos antigos prostíbulos fazendo uma metáfora com a forma de Spica comer, já que ele não usa a comida somente para se alimentar, mas também, para sentir prazer. Ali Albert Spica demonstra sua violência por meio das palavras e do modo como age com todas as pessoas ao seu redor.

Nesse cenário, o vermelho também pode significar o amor relacionado à primeira vez que Georgina e Michael trocaram olhares.

Além do vermelho, há o uso evidente do verde que representa a esperança dos dois amantes de ficarem juntos.

 

O BANHEIRO

O banheiro todo branco nos traz a contradição de uma cor que representa a pureza caracterizando um lugar que nada tem de puro. Podemos, então, relacionar isso ao primeiro contato entre Georgina e seu amante que, apesar de puro, leva consigo a impureza da traição. Outra possível interpretação é a de que o banheiro pode ser considera um lugar seguro para Georgina, pois é onde ela se esconde do marido, reafirmando mais uma vez a cor branca.

A COZINHA

Na cozinha encontramos a predominância da cor verde que alude à natureza. Essa cor pode ser relacionada tanto aos alimentos naturais como à relação selvagem entre Georgina e seu amante, pois é lá onde ocorrem as cenas de amor, e ao modo como Spica trata sua comida, como um animal.

 

A RUA

As cenas que se passam na parte de fora do restaurante têm uma fotografia soturna e obscura pois nos fazem lembrar a sujeira das ruas das grandes metrópoles. As cores mais usadas nesse cenário são o azul e o branco. O azul, aqui, é usado para dar dureza às cenas e ao personagem principal, um homem frio e violento. Além de ser o lugar onde acontecem as cenas dramáticas e de tristeza.  


O Fabuloso Destino de Amélie Poulain (2001) 

- Veja o trailer aqui.

O diretor Jean-Pierre Jeunet usa uma paleta de cores vivas, abusando do vermelho, do verde e do amarelo para dar um ar surreal e fantasioso ao filme.

A cor vermelha aparece, na maioria das vezes, relacionada à personagens femininos simbolizando carência, como nas roupas e no apartamento de Amélie e de sua vizinha, cujo marido sumiu.

A cor verde quando usada em momentos específicos como quando Amélie, usando um casaco da cor, conversa com seu pai, mostra certa impessoalidade entre os dois. A mesma cor pode ser observada em cenas gerais do filme e pode ser citado como uma fator de equilíbrio e calma já que o filme não contém cenas de clímax.

O filtro amarelo e laranja usado na fotografia passa a sensação de prazer e alegria, possibilitando uma experiência agradável ao assistir o filme.

 

Curiosidade: o diretor de arte de O Fabuloso Destino de Amélie Poulain se inspirou nas pinturas do artista brasileiro Juarez Machado para criar a paleta de cores.

Submarino (2011)

Veja o trailer aqui.

O toque nublado de sua fotografia somado a uma paleta de cores frias traz um ar de nostalgia reforçado por objetos como fitas k-7, máquina de escrever e uma Polaroide. A cor azul sempre relacionada ao personagem principal, usada em suas roupas e em seu quarto, representa calma e tranquilidade, um ponto a ser notado na personalidade de Oliver. Além disso, o azul pode estar relacionado à monotonia, característica de como o personagem enxerga sua vida.

Em contraste com a cor azul temos uma cor quente relacionada à namorada de Oliver. O vermelho é uma cor relacionada à atividade. Jordana, cuja personalidade é forte, está sempre em busca de algo; usa um casaco vermelho durante todo o filme. Além disso, é ela quem representa o amor para Oliver (sentimento também representado pela cor vermelha). O contraste das cores azul e vermelho representa a diferença entre esses personagens.

Grande Hotel Budapeste (2014)

Veja o trailer aqui.

Com uma direção de arte brilhante e complexa, o filme é composto praticamente de todas as cores do circulo cromático, com destaque para o branco, o azul, o rosa, o roxo e o vermelho. Apesar do uso de várias cores diferentes, os cenários criados são monocromáticos, variando apenas nos tons que, em sua maioria, são pastéis, dando um ar vintage ao filme que se passa na década de 1960.

Dá uma olhada nesse vídeo que mostra todas as cores usadas no filme.

As paletas escolhidas vão das cores quentes às cores frias, isso acontece para distinguir os dois momentos retratados: o do escritor e o da história contada pelo escritor, assim o espectador não se perde a cada mudança de época.

Com tantas cores assim é até difícil compreender o que cada uma delas quer dizer, mas além de usar as cores para dar mais significado ao sentido da história, Wes Anderson se preocupa com a estética, por isso é possível tornar qualquer frame dos filmes desse diretor em um belo quadro. Se você acha que em meio a tantas cores, não tem nenhuma que remeta, quase que de imediato, ao filme, você está enganado! Se te uma cor que lembra Grande Hotel Budapeste, essa cor é o rosa usado na fachada do hotel e em vários outros elementos. O tom de rosa sutil e delicado pode ser interpretado como o diferencial do diretor que deixa de lado as linguagens tradicionais do cinema para se aproximar dos contos de fadas, fazendo com o que o filme seja um deleite visual.

Veja nesta tabela alguns, dentro os inúmeros, significados que as cores podem ter: