CINE SEXTA - “Amo dançar porque sempre tive medo de falar”

“Amo dançar porque sempre tive medo de falar." pina bausch
 

Todo mundo sabe que tem algo errado. Sabe aquela sensação que ta estranho, não ficou bacana e ainda não dá pra sacar qual é o problema, em si. Pois é, amigo, você não esta sozinho.

Sinceramente, sobe um nó na garganta toda vez que eu ligo o computador e vejo alguma “novidade” sobre fatos cotidianos. Se remediar não adianta, vamos à velha  receita de família: em caso de perturbações, busquemos a arte!

Sempre fui bem tímida e, por esta razão, falo bem baixo, calma e lentamente. Nossa Senhora das Sapatilhas me salvou dessa impossibilidade de me expressar e, com meus aureos quatro, cinco anos, comecei a dançar.

E nada dessa coisa de rosinha e sapatilhas. Minha queridíssima tia Dê me mostrou o poder de chapinhas batendo no chão e, desde então, fazer barulho com os pés foi o mais prazeroso esporte que fiz. Dancei até meus 16 anos - abandonei a dança para estudar pro vestibular e por falta de tempo.

Reencontrei a dança quando, em 2012, fui assistir a estréia de “Pina”. Não tinha a menor ideia de quem fosse, confesso, mas o cartaz me chamou a atenção. Hoje o filme ainda me cativa como nenhum outro consegue. Não digo isso por “ser da dança”, e sim porque acredito que qualquer pessoa leiga no assunto se sensibilize com a obra de Pina Bausch.

A princípio, o filme de Wim Wenders, diretor e fã absoluto da bailarina, é sobre a coreógrafa alemã Phillipine Bausch. Digo “a princípio” porque claramente não é. Trata-se de uma biografia na qual a biografada quase não aparece.O canhão de luz do filme é a mensagem que a sua dança transmite. Fantastico, né? Não precisou de nenhum cenário hollywoodiano para tornar “Pina” especial, de modo que todo o conjunto do filme tornou-o original por si só.


“A palavra dança estava relacionada a um número muito particular de ideias. Mas a dança não consiste numa técnica particular. Isso seria extremamente arrogante, pensar que muitas outras coisas não seriam dança. E eu acredito que só um bom dançarino possa fazer muitas coisas muito simples”.

 

No filme, não é difícil perceber algumas peculiaridades de Pina, a exemplo das vestes utilizadas pelos bailarinos. São trajes de gala, acompanhados de belas e marcantes maquiagens. Irônico alguém reproduzir tantos movimentos repetitivos, com sequências intermináveis e, ainda, ser elegante ao final. A crítica vai para a ópera, o balé clássico e ao cinema, por quase sempre retratarem uma realidade ausente de traços humanos.

A opção 3D foi especialmente escolhida para aumentar a noção de espaço de quem assiste o filme, essencial à dança. Wim Wenders tirou os bailarinos dos palcos e os levou às ruas, galpões e salões vazios, usinas desativadas. Nesses espaços, o espectador tem apenas a dança e o espaço para iniciar a sua imernsão no mundo de Pina, com ajuda de uma trilha sonora. A riqueza de ângulos proporciona assistir aos mais sinceros sentimentos humanos: o medo da solidão, a inversão dos papéis sexuais, o riso disfarçado de lágrimas, a busca excessiva por algo tido como intangível e, acima de tudo, a saciedade infinita por amor. Pina nos faz viajar pelo seu mundo sem promover a alienação, mas sim uma inserção de seu olhar social, cultural e político sobre os fatos. A maior reflexão está em mostrar a harmonia que há na desarmonia da vida cotidiana, ou melhor, em humanizar nossos defeitos e nossos ridículos.

Reassistir Pina magicamente tirou aquele nó na garganta. Proposital ou não, Pina me relembrou que a arte liberta, protesta e a poesia de seus movimentos me inspiraram a escrever este texto. Assistir Pina me oxigenou a pensar diferente sobre as atuais circunstâncias, sair dos textões (por mais que esteja escrevendo mais um) e pensar em soluções. Há quem proteste, há quem vá diretamente para uma ação e, ainda, há quem dance.